Sangue Novo e experimentação no primeiro dia da Moda Lisboa

Numa passerelle luminescente os talentos emergentes da moda nacional mostraram o seu trabalho, inaugurando o primeiro dia oficial da 52º edição da ModaLisboa. Carolina Raquel foi a grande vencedora do concurso Sangue Novo com uma coleção que trabalha formas e volumes num nível de construção que refletiu o processo de esculpir. Com este prémio a jovem designer ganha uma bolsa de 5000 euros e entrada direta num Mestrado em Fashion Design na instituição Polimoda, em Florença.

Saíram ainda vencedores os designers Archie Dickens, que conquistou o prémio Feeting Room, e Frederico Protto classificado como Melhor Designer Internacional, prémio que lhe garante a presença na plataforma Workstation da próxima edição da Moda Lisboa.

Note-se que o funcionamento do concurso Sangue Novo foi alterado, tendo os seis finalistas sido selecionados na edição anterior: “Numa primeira fase, o júri do Sangue Novo seleciona entre 8 e 10 projetos para serem apresentados no desfile Sangue Novo da edição de outubro da ModaLisboa. Na apresentação de outubro, o júri elege 6 designers finalistas para apresentarem uma nova coleção no desfile Sangue Novo de março do ano seguinte.” Conforme explica a organização.

Além dos vencedores, Opiar, Rita Carvalho e The Core fizeram também parte do rol de designers finalistas, que apresentaram as suas coleções sob o olhar atento do Jurí, constituído por Alfredo Orobio (da marca Awaytomars), Cláudia Barros (diretora de moda da revista Vogue Portugal), Danilo Venturi (director da Polimoda), Diane Pernet (fundadora e diretora do festival de moda ASVOFF) e Miguel Flor, como Presidente (diretor criativo da revista Principal).

Coleção de Carolina Raquel, eleita Melhor Designer Nacional no concurso Sangue Novo

“Qualidade, individualidade, conceptualidade são fatores importantes num concurso de design de moda, mas no que toca à decisão final interessa-nos não só as coleções, mas também falar com os designers e perceber o que pretendem para o futuro, compreender o que este prémio poderá representar para eles”- explica o presidente do jurí, Miguel Flor- (o novo formato do concurso) é claramente benéfico. Nós percebemos que há uma maneira de fazer melhor que é gradual. Nestes últimos meses todos os designers evoluíram, não apenas pelo novo suporte financeiro, mas também porque tiveram tempo de maturar as ideias que já tinham, o que torna tudo mais interessante. Com este formato deixa de haver um fast continuum, eles têm mais tempo e isso reflete-se no produto final.”

Alfredo Orobio, da marca AwayToMars, integrou o jurí após ter ele próprio iniciado atividade pela plataforma Sangue Novo. Sobre todo o percurso Alfredo refere que:

“A Moda Lisboa foi o grande impulsionador da AwayToMars. Foi aqui que obtive a liberdade necessária para criar uma identidade de marca que está a iniciar atividade. Isso foi muito importante pois permitiu construir algo reconhecível entre coleções sem ter uma obrigação comercial, algo que pode ser muito condicionante para uma marca em fase inicial.”

Alfredo acrescenta ainda:

“Para mim, não faz qualquer sentido criar nada se não for novo. Na nossa sociedade criamos demais, consumimos demais e descartamos de mais. Não adianta criar marcas novas que vão apenas repetir o que já existe. A sustentabilidade e o destino das peças têm de ser tidos em conta”

O tempo e formas de vivê-lo retratados em tecidos e materiais

O experimental dos novos foi dando lugar à experiência dos consagrados. Da plataforma Lab, Duarte contou a história de três amigos que se aventuram no mar de Inverno numa coleção que reinterpreta a descontração do surf. Já Carolina Machado trabalhou a ostentação e o “conforto de pertencer às horas negras” numa coleção inspirada em clubbing atual vs raves do passado, onde a alfaiataria masculina se traduz em notas de feminilidade.

Valentim Quaresma utilizou o upcycling como reinterpretação do passado que abre caminho para novas visões de futuro. Esta incorporação de novos significados em materiais obsoletos revela-se como um combate ao desperdício e um importante reaproveitamento de recursos. Ricardo Preto encerrou o dia com a apresentação de coordenados que também refletem a ideia de tempo mas numa perspetiva de presente, da consciência imediata do fazer agora sem pensar no depois.

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