Moda Lisboa: perspectivas e expectativas perante a moda

Após uma sexta-feira de desfiles sucessivamente distintos, assistidos a partir de um banco apertadíssimo de curiosidade alheia quisemos explorar perspetivas. Mais do que elaborar um relatório detalhado dos pormenores ínfimos da bainha de um vestido quisemos antes compreender o que levou o designer a essa costura. Falamos com três designers distintos, com ideias e públicos distintos, mas todos com o ponto comum de desejar criar o sonho dos seus clientes.

David Ferreira

David Ferreira tem nele todos os sonhos do mundo. Isso observa-se tanto na passerelle como nos olhos que brilham a cada pergunta que colocamos. As suas criações são o resultado de uma visão particular e espetacular de formas e silhuetas.

Desfile de David Ferreira

 “Retiro inspirações de várias coisas e esta coleção foi a reflexão disso mesmo, o revisitar de todas as inspirações, desde arte a elementos específicos de tecidos e materiais.”- disse David.

Questionámos as suas espectativas enquanto designer, relativamente à exposição do seu trabalho perante o público português. O que se segue foi um esclarecimento sincero da nossa questão:

“O que me deixa um pouco triste é que, no mercado português, o nosso trabalho só parece ser valorizado se singrar lá fora Num dos meus primeiros desfiles, tinha lã incorporada em vestidos, algo que foi bastante criticado por stylists nacionais. Algum tempo depois disso a Björk utilizou os mesmos vestidos na sua Tour, e essas pessoas passaram a chamar-me de génio e dar-me os parabéns. É claro que isso é um pouco revoltante para mim enquanto designer, mas a minha resposta a pessoas que me vêm dizer que não gostam do meu trabalho é apenas que não se inserem no meu mercado. O meu mercado é constituído por pessoas que (em Portugal) são consideradas mais extravagantes. São pessoas que não se limitam à opinião dos outros, não se autorrotulam e são muito seguras de si mesmas.” – David continua, com a sinceridade autêntica de quem ama profundamente o que faz e não consegue conter em si o que sente por isso – “Acho que falta ao público português compreender o que está por detrás das coleções e o trabalho que é feito. Se o público tivesse um glimpse do que é para um designer, especialmente para um novo designer, apresentar coleções todas as estações… (pausa para reflexão e suspiros). As pessoas tendem a dar demasiado a sua opinião baseada em gosto pessoal ao invés de avaliarem condignamente o trabalho que está a ser mostrado. A crítica gratuita do “não gosto porque não” é demasiado comum. Se as pessoas vêm assistir a um desfile é para serem surpreendidas e para sonharem. Eu tenho confiança no meu próprio trabalho e acho que esse é o meu grande Insight. Eu aprendi isto, sobretudo quando estive em Londres: toda a gente pode dar opinião, mas no fim de tudo quem defende o teu trabalho és tu. E se tu não acreditas naquilo que fazes… It doesn’t matter.”

Carlos Gil

Após uma conversa fascinante que quase nos fez esquecer do contínuo espaço-tempo procurámos obter uma perspetiva veterana dos bastidores.

Carlos Gil apresenta a sua coleção na Moda Lisboa, fruto da nova colaboração da associação com o Portugal Fashion. As figuras públicas presentes na primeira fila são mais que muitas, e a curiosidade pelo desfile adensa a impaciência resultante da espera inevitável pelo começo.

Finalmente, as luzes apagam-se. Coordenado após coordenado, as cores fortes invadem a passerelle numa coleção que tem como base movimentos artísticos do início do século XX, traduzidos em ecléticas pinceladas de tecido.

Final do desfile de Carlos Gil

“Sou muito ligado às artes. Na coleção anterior a inspiração era a arquitetura e agora a pintura.”-explica Carlos Gil.

De fato a arte é observável em toda a sua pessoa. A conversa com Carlos Gil é inebriante e demonstra expressões equiparáveis a um pintor que descreve a poética do seu quadro: “Há pinceladas, neste print que eu apresento, que começam como um estudo que vai do cubismo e chega ao abstrato. São pinceladas de movimentos um pouco até confusos de início, mas que depois se tornam muito harmoniosos, em especial através dos sentimentos nelas introduzidos. Por essa razão é uma coleção profunda, onde a cor e as formas se unem. Toda a coleção segue esta norma: desde as pregadeiras, aos sapatos, à simplicidade da pele e do olhar das manequins… “

A poética das suas palavras traduz a sabedoria de quem “já tem muitos anos disto”. Mas mais do que compreender coleções procuramos obter lições por parte de quem viveu mais:

“Ao longo da minha carreira tenho aprendido que o que é hoje não vai ser o mesmo amanhã. Tudo muda. Não apenas na moda, mas nós mesmos mudamos. Por vezes é preciso ter jogo de cintura e saber dizer sim, e também saber dizer não nas horas certas, para que as coisas possam acontecer com sensatez.”

Os desfiles são feitos para serem assistidos. O sistema só funciona se for em simbiose. Em relação ao público e à reacção ao seu trabalho Carlos Gil refere que:

“Vivemos numa democracia. Viver numa democracia e em liberdade é extremamente difícil pois a liberdade só tem sentido a partir do momento que existe responsabilidade. O ser-se responsável por tudo aquilo que se fala e que se faz é muito complicado. Por isso não se pode dizer tudo aquilo que se pensa porque vivemos numa liberdade que acarreta responsabilidade. Tem de haver cautela e a forma como queremos atuar tem de ser pensada.”

(Fica o espaço à reflexão)

Luís Carvalho

Os eventos agendados no Pavilhão Carlos Lopes foram encerrados com o desfile de Luís Carvalho. Os metros da fila de convidados que antecedeu a abertura de portas confirmaram a ânsia que se fazia sentir pelo desfile deste criador.

Os coordenados começaram a surgir. Vestidos de noite fluídos contrapostos a bolsas de cintura, fatos com elementos estrategicamente construídos de volume e forma, cores neutras interrompidas por xadrez. O desfile de Luís Carvalho confirmou a expetativa que pairava em seu redor.

Final do desfile de Luís Carvalho

A conversa com o designer obrigou a mais um exercício de paciência que sabíamos que valeria a pena. Para chegar a Luís a espera é já uma constante.

“Tenho como inspiração a arte diversificada de Matthieu Borel. Tal como ele pretendi juntar vários elementos e layers, não só nas próprias peças, mas também no styling dos coordenados.” -A seriedade de Luís Carvalho transmite tranquilidade. As suas palavras parecem tornar a moda simples de compreender e observar- “No meu percurso penso que o mais importante é a evolução. O poder aprender um pouco mais com cada coleção e poder corrigir as pequenas falhas que sempre existem, pois nunca ninguém faz nada absolutamente perfeito.”  

De facto o perfeccionismo é algo observável em Luís Carvalho. Muito além da moda que produz o designer deixa transparecer a atenção ao pormenor a cada palavra e expressão que transmite. Apesar da clareza cuidada com que descreve as seus pensamentos, Luís Carvalho não esconde o que o indigna: “Falta ao público compreender que o nacional é bom. Embora quem gosta de moda aprecie sempre as peças, a moda portuguesa não é valorizada da mesma forma que a moda internacional. É visível que as pessoas só valorizam o que é internacional quando alguns de nós se internacionalizam. Percebe-se isso claramente quando temos em Portugal alguém que é bom e só obtém destaque a partir do momento em que faz alguma coisa no estrangeiro. Isso sente-se em muitas áreas, não apenas na moda, infelizmente.”

Após isto, nada a acrescentar.

Obrigada pelas perspectivas.

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