“Tágide” e a sua cozinha inspirada n’Os Lusíadas

Há poesia logo na entrada, há uma das mais românticas histórias sobre Lisboa. O nome do restaurante, Tágide, foi escolhido para homenagear esta capital que não cansa de me encantar e me apaixona, cada vez tenho a oportunidade de conhecê-la um pouquinho mais.

O poeta Luis de Camões, escreveu que as Tágides são as ninfas do rio Tejo, a quem ele pede inspiração para compor a obra de Os Lusíadas. E porque é que ouvir falar de Camões e a sua grande obra, mexe comigo?!

Bem, vou vos contar um segredo, antes de partilhar a minha experiência neste restaurante. A primeira vez que entrei na casa do António, meu marido, que hoje também é minha, vi uma série de edições de Os Lusíadas guardadas num armário antigo, com portas de vidro na sala.

Achei aquilo intrigante e perguntei-lhe por que tinha tantas edições, ele disse que sentia um fascínio enorme pela obra e que, sempre que via uma edição diferente comprava-a. Logo a seguir, leu algumas das páginas de um dos livros e eu acabei por me apaixonar completamente, por aquele poeta barbudinho e meio careca que estava à minha frente a recitar Camões, com os olhos emocionados e entoação de quem sabe o valor do que está a ler. Meses depois encontrei numa livraria, a segunda edição de Os Lusíadas e não pensei nem duas vezes, comprei-a na mesma hora e “zereiiii” a minha conta bancária… mas pra quem ama à serio, não há coisa mais gostosa de ver a pessoa amada feliz e com aquele sorriso de “uaaaauu tu és louca, mas realizaste o meu sonho!”…sabe bem né?!

Voltemos ao meu almoço no Tágide! Partilhei a refeição com a Élia, que é daquelas pessoas com a qual consegues conversar horas e mais horas sem enjoar sabe?!

Quando entrei no restaurante e olhei ao meu redor pensei: “uau, a minha cara! A cara da riqueza!”

Pra início de conversa, só se entra depois de tocar à campainha, no primeiro andar fica um hall super aconchegante com uma escadaria fabulosa até ao segundo piso, onde está toda a magia. A decoração é de muito bom gosto, uma mistura entre o requinte clássico com uma viagem histórica, vista nos azulejos do século XVIII nas escadas e uma fonte lindíssima em uma das paredes do salão principal, que data do século XVII. A ligação entra a História e a arte portuguesa é da autoria de Susana Barros, que é com o marido, proprietária do Tágide, e uma perita em Arte. Susana conseguiu fazer o casamento perfeito de tudo o que os nossos olhos conseguem absorver, antes de ficarmos apaixonados pela vista, Lisboa na sua beleza indiscutível.

Situado no Chiado, no Largo da Academia Nacional de Belas Artes, o espaço foi uma discoteca badalada nos anos 50, um dos mais célebres frequentadores, foi o cantor francês, Charles Aznavour. Fechou anos mais tarde e reabriu na década de 70 como um restaurante requintado de nome Tágide. Foi o primeiro restaurante em Lisboa, a receber uma estrela Michellin, no rubro dos anos 80. Pela sua sala já passaram nomes importantes, como o ex-Presidente Mário Soares, a pintora Maria Helena Vieira da Silva e a cantora de ópera Maria Callas, após cantar no Teatro São Carlos.

Mas precisou fechar nos 90, para que, em 2004 o marido de Susana tomasse as rédeas que, o restaurante aberto outrora pelo pai, voltasse a ter um novo brilho.

De um jeito tímido, meio que “step by step” a clientela conhecida foi voltando e novos curiosos entraram para ficar. Susana começou a ajudar anos depois, deu aquele toque feminino. Levou as peças de arte e mais charme para o Tágide.

Em Fevereiro deste ano, a cozinha passou por uma mudança que, na minha opinião foi extraordinária! Entrou o chef Gonçalo Costa, que já passou pelo Eleven, Hotel Ritz, Penhalonga e esteve alguns anos a viver em São Paulo, onde lançou o conceito de food truck, é que o chef casou com uma brasileira, homem de bom gosto, diria eu!

Cheirinho de verão no novo menu

A carta da nova estação foi lançada agora e para os novos pratos, o Chef inspirou-se no mundo dos descobrimentos portugueses, com cheiros e sabores únicos em Portugal e com aqueles temperos que provocam saudade de tudo o que, um bom português (considero-me neste grupo) já provou e lhe marcou com boas lembranças. Resumindo, uma mesa tuga com produtos de primeira qualidade.

O couvert é composto por uma trilogia de manteigas de pimento assado, leite de ovelha e salsa. também acompanhado por um patê de salmão e aneto, azeite com vinagre balsâmico e três tipos diferentes de pães. O amuse bouche estava divinal, um tártaro de corvina sobre endívia e com leite de côco. Soube a pouco, mas perfeito para deixar o meu palato curioso do que viria a seguir.

Como a Élia está grávida de um princesinha e não pode arriscar com alguns alimentos, o chef preparou outro amuse bouche da casa, um queijo de cabra com meloa e geléia de tomate, combinação bem portuguesa! Just love it!!!

Quando a Ana, a simpática jovem que nos estava a servir, chegou com a entrada, os meus olhos brilharam! Antes de vos dizer o que era, tenho que mencionar que precisei de uns segundos para voltar a tentar ouvir o que a Élia estava a dizer depois da primeira garfada, mergulhei numa loucura de sabores i-na-cre-di-tá-vel! Não dá para imaginar, é mesmo preciso provar este prato que, com uma apresentação muito elegante é feito de atum dos Açores com caviar de arenque, gel de laranja e crumble, tudo misturado na boca é, desculpem a sinceridade, “orgâsmico!!!”. Mesmo!

Outra entrada a não perder é a sardinha com sementes, pimento assado e consommé de tomate. A cara do verão alfacina!

Na nova carta, há pratos principais para todos os gostos, como Lavagante azul com batata-doce, Bacalhau com purê de grão, Lombo de novilho maturado com abóbora e espargos, e Carré de borrego. Se o cliente for vegetariano, o chef está pronto para criar novas sugestões.

O menu do dia também é uma excelente escolha, composto pelo couvert, sopa do dia ou salada sazonal, prato principal, uma sobremesa que pode ser à escolha do cliente, entre o delicioso crème brulée ou salada de frutas, café ao final e, claro, vinho para acompanhar a refeição. O preço é muito simpático, 18,50€. Eu provei o prato principal do dia, lombinhos de Porco tão bem cozinhados que se desafiam na boca, com um purê de cenoura que, a cada garfada só me deixava com vontade de rir, porque eu não conseguia pensar: “meu Deus do céu onde fui entrar, isto é tudo bom!” … ahahah e escrevo às risadas, porque foi uma refeição “surrealmente” deliciosa!

ah! Mas ainda não contei pra vocês o que mais há no Tágide. Mais Paula?! Yap, gente do outro lado do primeiro piso há um Wine Bar, só com vinhos e petiscos portugueses. Com jazz às sextas e DJ aos sábados, opção de vinho a copo, degustações ocasionais e uma decoração linda em madeira, bem rústica e claro, como todo o espaço, cheia de charme.

Vou voltar, ah isso vou! Para vos contar deste Wine Bar e da nova esplanada onde, simplesmente há um “elétrico chamado Tágide” …mas isso fica para outra crônica.

 Newsletter